Paulo Saraiva poderia muito bem ter o destino de muitos garotos de origem humilde que como ele nasceram e cresceram no Varjão, no Distrito Federal. Por algum tempo, a região foi vista como uma área violenta, com alto índice de criminalidade. Graças à mãe, Jandilma, e ao esporte, especialmente o tênis, Paulo Saraiva conseguir fugir das ruas. Agora, ele sonha alto e espera disputar os Grand Slams nos próximos anos.
“Eu conheci o tênis em um projeto social em Brasília, no grupamento dos fuzileiros navais. Eu entrei nesse projeto basicamente para não conhecer as coisas ruins da rua. O lugar que eu venho é, em teoria, um pouco perigoso, com fácil acesso às coisas ruins da vida, e minha mãe me colocou com o intuito de estar ali no contraturno da escola e não conhecer o lado errado da vida”, afirmou Saraiva, em entrevista ao DIÁRIO DO TÊNIS durante o Challenger de Campinas.
A filho da dona Jandilma entrou no projeto aos nove anos. Praticou natação, futebol, atletistmo, tinha aulas de música e, aos 13 anos, conheceu o tênis. Com o incentivo dos professores Chico e Carlão, passou a se dedicar apenas ao esporte. Dos 14 aos 19 anos, treinou em uma “quadrinha” simples próxima ao luxuoso Iate Clube de Brasília.
Com 16 anos, Paulo Saraiva chegou a ser o tenista número 1 do Brasil na categoria. No segundo torneio como profissional, promovido pelo Instituto Sports, somou o primeiro ponto no ranking. No entanto, a transição do juvenil para o profissional não foi tão fácil como ele chegou a imaginar. Ele conheceu o “Lado B” do tênis, sem o luxo e o dinheiro dos grandes torneios. Veio a depressão.
“Por um momento em realmente achei que as coisas aconteceriam rápido, por ter pontuado com 17 anos. Dos meus 19 até os meus 23 anos foi bem duro mentalmente, eu diria que até com momentos depressivos, de trabalhar duro e não ter resultado, não poder estar jogando. Nesse mundo dos Futures (torneios promovidos pela ITF com tenistas com ranking mais baixo) acontece muita coisa, né? Você chega não tem água, não tem bola, não tem condições para você treinar”, afirmou
Embora o trabalho duro não tenha se convertido em resultados, ele chamou a atenção de outras pessoas. Uma delas foi Luiz Fernando Neto, da ATA (Amigos do Tênis Amazonense), que paga as viagens de Paulo Saraiva para os torneios.
“Eu conheci ele em um torneio que ele promove em Manaus. Ele mudou minha vida. É a pessoa que me fez voltar a jogar e ter esperanças. Todo final do ano a gente vai colocando as nossas metas e estamos conseguindo cumprir isso. Um resultado como o da semana passada mostra que a gente está no caminho”, afirmou o tenista, que chegou nas semifinais do Challenger de São Leopoldo e só foi eliminado pelo campeão, o argentino Facundo Diaz Acosta, ex-número 47 do ranking da ATP.
Além de Luiz Fernando, outras pessoas cruzaram o caminho de Paulo Saraiva e foram fundamentais para ele não desistir do sonho do tênis. Uma delas é o também tenista Luis Britto, que foi uma espécie de técnico e parceiro de duplas.
“Tem uns três, quatro anos que a gente viaja junto. Eu passei dois anos sem treinador por causa dos custos ele sempre está nos meus jogos me dando força, ele sabe os botões que precisa apertar para tirar cada função e tem me ajudado muito”, explicou.
O “anjo” mais recente na trajetória de Paulo Saraiva foi Santos Dummont, que é treinador, entre outros, de Luis Guto Miguel, uma das grandes promessas do tênis brasileiro. Desde dezembro do ano passado Saraiva é treinado por ele, em Brasília.
O tenista, hoje com 25 anos, já vê uma evolução no jogo. No Challenger de Campinas, ele venceu o primeiro set contra o boliviano Murkel Dellien, atual 277 do raking, por 6-1, mas começou a sentir um mau-estar e levou a virada por 2 sets a 1. Apesar de lamentar o resultado, Paulo Saraiva destaca a mudança de patamar.
“Eu ainda tenho muita coisa para melhorar, meu jogo ainda tem muito buraco. Mas ele (Santos Dummont) está me passando muita confiança, pedindo para eu ser mais agressivo, trabalhando com o meu saque. Digamos que eu tenho as armas, mas não estava usando. Agora deu um cliquezinho mental de sentir que eu realmente mereço estar aqui, que eu faço parte desse mundo. Você já nota que os jogadores te olham de forma diferente e espero buscar a minha vaguinha “, afirmou Saraiva.
A próxima meta é o sonho de disputar um Grand Slam. Para entrar no quali, um tenista precisa estar entre os 240 primeiros do ranking. Saraiba atualmente está na 505ª colocação, mas alguém pode duvidar depois dele superar todos os obstáculos que já apareceram na carreira e na vida?
“Pouco a pouco a gente vai melhorando para cumprir o que a gente está querendo, para estar nos Grand Slams, que é um sonho. É um lugar que eu acredito que mereço estar e trabalho muito duro para isso”, completou.